Publicado em: 30/09/20268 minsÚltima modificação em: 30/09/2026

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Rick deixou milhões. Só que boa parte já não estava no nome dele

Repentina morte do cantor Rick levanta discussão sobre como são contabilizadas as fortunas de celebridades. Saiba como é o seu planejamento patrimonial.
Saiba a herança deixada pelo cantor Rick

Toda vez que alguém famoso morre, a internet faz a mesma pergunta antes mesmo de o velório terminar. Quanto ele deixou? Muitos acham que a resposta está nas fotos. Somam a mansão, o rancho, a casa nos Estados Unidos, jogam os direitos autorais por cima e chegam a um número bonito para manchete.

Mas a verdade é que patrimônio não se entende por foto. A foto mostra a piscina. Quem mostra o dono é a estrutura.

No caso de Rick, da dupla Rick & Renner, a estrutura conta uma história muito mais interessante que a piscina.

Ele morreu aos 59 anos, depois de quatro décadas de carreira. Foi um dos grandes compositores do sertanejo e deixou centenas de músicas, imóveis de alto padrão e uma fonte de renda que continua a funcionar sem ele subir ao palco. E parte disso já tinha começado a sair da pessoa física dele muito antes do acidente.

A fortuna que aparece na foto

A casa mais conhecida da família fica em Itu, no condomínio City Castello. São cerca de 6 mil m² de terreno e 1.200 m² construídos, com nove quartos, cinco salas e uma área de lazer que renderia um episódio inteiro de programa de reforma.

Em 2020, o imóvel foi colocado à venda por R$ 11,9 milhões. Mais tarde apareceu em processo judicial com avaliação próxima de R$ 9 milhões.

Havia ainda um rancho em Santa Catarina, na região de Rancho Queimado, e uma casa comprada em novembro de 2025 num condomínio de luxo em Orlando, onde Rick passou a morar com a esposa, Geralda Helena.

Aqui preciso ser honesto. Sem matrícula e sem valor de compra, qualquer número para esses dois imóveis é estimativo. Pelo padrão e pela região, trabalho com algo entre R$ 4 milhões e R$ 5 milhões para cada um. Com a casa de Itu, os três imóveis chegariam perto de R$ 18 milhões.

E é exatamente aqui que a conta de padaria começa a dar errado.

A casa de R$ 9 milhões que não era dele

Antes de mais nada, e para evitar qualquer mal-entendido, tudo o que vem a seguir está em processo judicial público.

Em 2023, Rick foi cobrado na Justiça por um empréstimo de 2017. A dívida tinha chegado a cerca de R$ 639 mil, e a Justiça mandou penhorar bens da casa de Itu.

No processo, Rick disse que não era dono do imóvel. Tinha o usufruto. O dono era o filho, Victor.

Muita gente leria isso como detalhe processual. Só que esse é o dado mais importante do texto inteiro, mais até que o valor da casa.

Uma coisa é o pai ser dono de uma casa de R$ 9 milhões. Outra, completamente diferente, é o filho ser o dono e o pai manter o direito de morar ali.

Transferir a propriedade e ficar com o usufruto é uma das ferramentas mais clássicas do planejamento patrimonial. A casa continua a servir à geração de cima. A propriedade já desceu para a de baixo.

Não sei quando essa operação aconteceu nem em quais condições, porque não tenho a matrícula atualizada. Sei que Rick apresentou essa estrutura à Justiça. E isso basta para uma conclusão. Quem olha só para o CPF dele olha para o lugar errado.

Uma holding de R$ 10 mil (que não vale R$ 10 mil)

Em novembro de 2021 apareceu outra peça. Foi aberta em Itapema, Santa Catarina, a GG Participações Ltda., também chamada GG Investimentos e Negócios. A atividade principal registrada é holding de instituições não financeiras. Os sócios são Rick e os dois filhos, Mônica Carvalho Nascimento e Victor Henrique de Oliveira Carvalho. A empresa continua ativa.

O capital social é de R$ 10 mil. Antes que alguém faça a manchete “holding de Rick vale R$ 10 mil”, um esclarecimento. Capital social não é patrimônio. Julgar uma holding pelo capital social é como julgar um cofre pelo preço do cadeado.

O que tem dentro desse cofre ninguém sabe publicamente. Não sabemos se entraram imóveis, aplicações ou participações.

Mas o que sabemos já basta. Rick criou uma holding e colocou os dois filhos dentro dela. Isso não é opinião. Está no cadastro da empresa.

A empresa da esposa

Geralda Helena, casada com Rick havia mais de quatro décadas, é sócia administradora da Soma Editora Produtora e Promoções Artísticas Ltda., aberta em 2016. A empresa tem capital social de R$ 100 mil e atua com produção musical, gravação e edição de música.

Rick não era só cantor. Era compositor. E compositor vive de um patrimônio que não ocupa terreno, não sai em foto e não fica estacionado na garagem. Direito autoral.

Cabe a honestidade de novo. Não encontrei prova pública de que o catálogo de Rick estivesse na empresa da esposa, então não vou afirmar isso. Mas a existência dessa editora mostra que a família tinha estrutura empresarial ligada justamente à atividade que pagava boa parte das contas.

O ativo que não se aposenta

Talvez o bem mais valioso de Rick não fosse nenhuma das casas. Talvez fosse o repertório.

Em 2006, segundo o próprio Ecad, ele ficou pelo segundo ano seguido em primeiro lugar entre os autores que mais arrecadaram com execução em rádios AM e FM no país. Em 2008, voltou a liderar a arrecadação autoral no Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste. Em 2010, anos depois do auge, ainda aparecia entre os autores de maior rendimento do país, inclusive em shows.

O Ecad nunca divulgou quanto ele recebia. Rick também não. E eu não vou fingir que sei.

Mas é o tipo de patrimônio que não precisa ser vendido para render. Ele paga enquanto a música toca no rádio, no show, na TV, no streaming e nas regravações. Toda vez que um restaurante coloca uma música dele no som ambiente, entra dinheiro de direito autoral.

Se o catálogo gerasse, por hipótese, algo entre R$ 500 mil e R$ 600 mil por ano para ele, esse ativo poderia valer vários milhões. Não porque 600 músicas parecem muita coisa. Mas porque ativo produtivo vale pelo que produz.

Quem soma só as casas erra para baixo.

A conta, com todas as ressalvas

  • Residência de Itu: cerca de R$ 9 milhões.
  • Rancho em Santa Catarina: entre R$ 4 milhões e R$ 5 milhões.
  • Casa em Orlando: entre R$ 4 milhões e R$ 5 milhões.
  • Catálogo musical: entre R$ 7 milhões e R$ 10 milhões, conforme a arrecadação real.
  • Some veículos, investimentos, caixa, participações e o que mais aparecer. A conta fica entre R$ 25 milhões e R$ 30 milhões, talvez mais.

Agora, a manchete que eu não vou escrever. “Rick deixou R$ 30 milhões.” Ele talvez tenha construído isso. Deixar, no sentido de inventário, é outra conversa.

Onde quase todo mundo erra

Quando uma família só começa a falar de patrimônio depois da morte, tudo chega atrasado.

Chega inventário. Chega imposto. Chega briga de herdeiro. Chega empresa parada. Chega conta bloqueada. E chega uma pilha de decisões justamente na semana em que ninguém tem cabeça para decidir nada.

Na minha rotina, a frase que mais escuto sobre sucessão é “depois eu vejo isso”. O depois costuma chegar num velório.

No caso de Rick, há sinais de que parte dessa conversa aconteceu antes. O filho já aparecia como dono da casa sobre a qual o pai tinha usufruto. Os dois filhos já estavam numa holding criada em 2021. A esposa já administrava uma empresa do ramo musical.

Isso prova que ele fez um planejamento perfeito? Não. A lista do que não sabemos é longa. Falta o regime de bens do casal, o contrato da holding, onde está cada imóvel, de quem é cada composição, quanto havia aplicado e o que ainda vai passar por inventário.

Prefiro admitir isso a inventar número. Mas também seria difícil olhar para tudo isso e chamar de sorte.

Ter patrimônio é uma coisa. Organizar é outra.

Rick transformou música em renda. Depois, renda em patrimônio. E, ao que parece, começou a transformar patrimônio individual em patrimônio familiar.

Essa terceira etapa é a que quase ninguém faz. É comum alguém trabalhar quarenta anos para construir algo e dedicar quarenta minutos a pensar em como aquilo sobrevive sem ele.

O problema nunca foi só o imposto. É a concentração. Uma casa no nome errado. Uma empresa que depende de uma pessoa só. Um patrimônio inteiro preso num CPF. Um filho que descobre o que o pai tinha depois da missa de sétimo dia.

Rick parece ter feito o caminho contrário.

O tamanho exato da fortuna talvez só apareça quando os documentos vierem a público. Mas o caso já ensina uma coisa.

Patrimônio de verdade é aquele que continua a funcionar quando o dono já não está aqui para explicar a senha do banco.

João Cosme, da Blue3 Investimentos
João Cosme é sócio da Blue3 Investimentos e especialista em Proteção Financeira e Planejamento Sucessório.

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