Como se preparar para viver mais, segundo a neurociência
Publicado em: 02/09/202611 minsÚltima modificação em: 02/09/2026

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O que a neurociência ensina sobre preparar a mente e as finanças para viver 100 anos

A neurociência está nos ajudando a encontrar respostas para uma pergunta que a humanidade nunca precisou responder: como se preparar para viver tanto tempo?

A humanidade sempre se saiu bem, ou relativamente bem, ao se preparar para lidar com o que ameaça a sua vida. Aprendemos a estocar comida para o inverno, a levantar exércitos diante da guerra, a fechar cidades inteiras diante de uma pandemia. Fizemos bem a nossa lição quando precisamos nos organizar contra a escassez e contra o perigo. Mas o que nunca precisamos aprender a administrar, em toda a nossa história, foi ter tanto tempo de vida quanto temos hoje. Viver muito, até cem anos, ou mais, sempre foi promessa de lendas ou de ficção científica. Até hoje, nunca tinha sido um cenário concreto para o qual precisássemos nos planejar.

Esse cenário vem se aproximando depressa. O demógrafo James Vaupel mostrou que, desde 1840, a expectativa de vida nos países que lideram esse indicador vem subindo de forma quase linear, a um ritmo de cerca de dois anos e meio a cada década — e, se esse ritmo se mantiver, a maior parte das crianças nascidas neste milênio vai comemorar o centésimo aniversário (Vaupel, 2019). O número de centenários no mundo já passa de meio milhão de pessoas e a projeção é de que triplique até 2050 (Heshmati, 2021), com estimativas indicando algo em torno de 25 milhões de centenários até o fim deste século (Robine et al., 2017).

Ao mesmo tempo, é importante manter os pés no chão: pesquisadores como Jay Olshansky vêm mostrando que os ganhos de expectativa de vida estão desacelerando desde 1990, e que, sem uma mudança profunda na forma como o próprio processo biológico de envelhecer funciona, a extensão radical da vida continua sendo pouco provável neste século (Olshansky et al., 2024). Mas, esta reflexão aqui não é sobre viver 150 anos. É sobre o fato, bem mais imediato, de que chegar aos 90 ou aos 100 deixará de ser exceção para se tornar estatística comum — e disso a gente já pode, ou talvez já deva, se ocupar.

De partida, vale combinar que a perspectiva que estou considerando é a de que viver mais tempo não é apenas viver mais do mesmo. É multiplicar as oportunidades — e os riscos. Uma decisão financeira equivocada, uma sociedade malfeita, um relacionamento que não deveria ter durado tanto: numa vida de 80 anos, esse tipo de erro talvez se repita duas ou três vezes. Numa vida de 100 ou 120 anos, pode se repetir quatro, cinco, seis vezes, e cada repetição custa mais caro, porque o tempo de recuperação também encolhe proporcionalmente.

Por isso a clareza de intenção, a capacidade de reconhecer o próprio erro e de se responsabilizar por ele — em vez de terceirizar a responsabilidade — deixam de ser apenas virtudes de caráter e passam a ser, literalmente, uma competência de sobrevivência de longo prazo. E é exatamente aqui que a neurociência tem algo concreto a dizer sobre como preservar a ferramenta que toma todas essas decisões: o próprio cérebro.

O cérebro que continua sendo desafiado envelhece melhor

Um dos achados mais consistentes da neurociência do envelhecimento é o conceito de reserva cognitiva: a capacidade do cérebro de continuar funcionando bem mesmo diante do desgaste natural da idade, construída ao longo da vida por meio de desafios inéditos, aprendizado e, sobretudo, vínculo social.

Uma revisão sistemática recente, que reuniu 27 estudos longitudinais, mostrou que a reserva cognitiva construída na primeira fase da vida, na meia-idade e na velhice reduz, de forma consistente, o risco de demência em todas as janelas analisadas (Liu et al., 2024). E o peso da vida social nesse processo é maior do que a intuição sugere: pesquisadores da University College London encontraram que a participação social ao longo da vida está associada a uma redução de 30% a 50% no risco de desenvolver demência, por reduzir o estresse crônico, melhorar a saúde cardiovascular e ampliar essa reserva (Sommerlad et al., 2023).

Na prática, isso significa que o cérebro não precisa de fantasias de super-herói para se manter afiado aos 80 ou 90 anos. Precisa de coisas simples, mas nem sempre fáceis de sustentar: aprender algo que ainda não sabia, manter uma rede de convivência diversa, aceitar problemas novos em vez de só repetir soluções antigas, escolher e exercitar bons modelos de pensamento e comportamento.

É o mesmo raciocínio que vale para o dinheiro: quem nunca treinou a tomar decisões financeiras difíceis chega mal preparado para tomá-las justamente na fase da vida em que elas mais importam, como na aposentadoria ou diante de uma sucessão patrimonial. Guardadas as devidas proporções e considerados os devidos contextos, reserva cognitiva e reserva financeira se constroem do mesmo jeito — aos poucos, com exercício, muito antes do momento em que vão ser cobradas.

Dormir bem não é luxo

Se a reserva cognitiva é sobre estimular o cérebro, o sono profundo é sobre mantê-lo saudável, limpo e ativo. Durante o sono de ondas lentas, entra em ação o sistema linfático, uma espécie de rede de drenagem que circula líquido pelo cérebro e retira dali proteínas e metabólitos tóxicos associados a doenças neurodegenerativas, entre eles a beta-amiloide e a tau, ligadas ao Alzheimer (Reddy et al., 2020).

Em um estudo recente com participantes monitorados durante a noite, pesquisadores compararam uma noite de sono normal a uma noite de privação de sono e encontraram, pela manhã, níveis mais altos desses biomarcadores no sangue justamente de quem tinha dormido mal — evidência de que essa faxina cerebral noturna realmente depende de um sono de qualidade (Dagum et al., 2024).

O detalhe importante aqui é a escala de tempo: uma noite maldormida não destrói nada sozinha. O problema é a insônia crônica, malcuidada, sustentada por dez, quinze anos — o tipo de coisa que a gente adia resolver porque “não é tão grave assim”. É esse acúmulo silencioso, e não um episódio isolado, que compromete décadas de qualidade de vida. Cuidar do sono não é sobre buscar mais tempo de vida às voltas com médicos e exames. É sobre manter, ao longo de muitas décadas, a capacidade de aproveitar o tempo que já se conquistou.

O estresse crônico cobra a conta na memória

Há um terceiro fio que conecta tudo isso, e é talvez o mais relevante para quem pensa em planejamento de vida: o efeito do estresse crônico sobre o hipocampo, a região do cérebro responsável pela memória. Desde os anos 1990, estudos mostram que níveis elevados e persistentes de cortisol estão associados a atrofia do hipocampo e a déficits de memória em pessoas idosas (Lupien et al., 1998), e uma revisão mais recente reforça que o cortisol crônico exerce efeito tóxico direto sobre essa região, contribuindo para o declínio cognitivo (Ouanes et al., 2019). Em outras palavras, o estresse crônico não é só desconfortável, ele desgasta fisicamente uma estrutura do cérebro central na escolha e no armazenamento de memórias.

E é aqui que o planejamento financeiro deixa de ser um assunto separado da saúde do cérebro e passa a ser parte dela. A insegurança financeira crônica é, comprovadamente, uma fonte de carga alostática — o desgaste acumulado do corpo diante do estresse repetido. Um estudo com dados de idosos canadenses mostrou que receber uma renda garantida na aposentadoria reduzia significativamente esse desgaste fisiológico entre quem vivia em situação de insegurança financeira (Duignan et al., 2024), e pesquisa conduzida com participantes do estudo Whitehall II, no Reino Unido, associou a tensão financeira a piora do bem-estar emocional, do sono e da saúde percebida (Steptoe et al., 2020).

Outro estudo mostrou que a sensação de segurança financeira em relação ao futuro — não apenas o saldo bancário do momento — é um dos maiores preditores isolados de bem-estar geral, comparável ao peso somado da satisfação no trabalho e das relações afetivas (Netemeyer et al., 2018). A sensação de segurança, portanto, funciona como proteção real, mensurável no corpo, contra o desgaste que o estresse crônico provoca justamente na região do cérebro que guarda as lembranças de uma vida inteira.

O ganho de tempo só vale a pena se vier com qualidade

Ver bisnetos nascerem, e depois os tataranetos, vai deixar de ser um acontecimento raro para se tornar parte comum da experiência de muitas famílias. Isso é, sem dúvida, uma dádiva. Mas só é uma dádiva se for vivida com autonomia, sem se tornar um peso para si mesmo ou para quem está por perto.

E aqui talvez esteja o convite mais honesto que eu vou te fazer: assim como o cérebro se prepara, ao longo de décadas, para chegar inteiro aos 90 ou aos 100 anos, o plano de vida — financeiro, afetivo, profissional — também precisa ser construído com a mesma antecedência, com a mesma consistência de quem dorme bem, aprende coisas novas e cuida de suas relações todos os dias, sem esperar a urgência avisar.

Só que nada disso é trivial. Construir bons modelos de pensamento e comportamento, ajustar a rotina de sono, mudar hábitos de vida para reduzir o estresse crônico — tudo isso, no fundo, é mudança de comportamento. E mudar comportamento geralmente não é fácil, sobretudo quando o hábito antigo já está instalado há décadas. E é exatamente por isso que existe metodologia: não porque falte informação, mas porque sustentar uma mudança ao longo do tempo exige processo, repetição e estrutura.

É nesse território que entra o GET — Goals, Errors and Training (objetivos, erros e treinamento, em português) —, metodologia autoral desenvolvida pela Ilumne a partir da lógica de automatização de circuitos neurais no cerebelo, para justamente transformar intenção em novos comportamentos consolidados. A ideia central é definir com clareza o que se quer fortalecer, reconhecer os erros que atravancam esse processo sem culpa, e treinar repetidamente o novo comportamento até que ele se torne automático.

A humanidade nunca precisou se planejar para viver tanto. Agora precisa. E quem começa esse plano cedo — na mente, no sono, nos vínculos e nas finanças — não está apenas comprando mais anos. Está comprando o direito de vivê-los bem.

João Cosme, da Blue3 Investimentos
Carla Tieppo é doutora em Ciências pela USP, professora, pesquisadora e pioneira em neurociência aplicada. Com mais de 30 anos de atuação, transforma conhecimento sobre o cérebro em estratégias para comportamento, performance, bem-estar e desenvolvimento humano. Desde 2025, atua no Grupo MAG como conselheira consultiva com a missão de transformar conceitos neurocientíficos em conhecimento, experiências e iniciativas mais inovadoras para colaboradores, corretores, clientes e parceiros da empresa.

Referências

Dagum, P. et al. (2024). The glymphatic system clears amyloid beta and tau from brain to plasma in humans.Nature Communications.

Duignan, L. et al. (2024). The association between allostatic load and guaranteed annual income using the Canadian Longitudinal Study on Aging. Health Policy.

Heshmati, H. (2021). The Centenarians: An Emerging Population.

Ilumne (2025). eBook GET — Goals, Errors and Training: metodologia de desenvolvimento comportamental.

Liu, Y. et al. (2024). Cognitive reserve over the life course and risk of dementia: a systematic review and meta-analysis. Frontiers in Aging Neuroscience.

Lupien, S. et al. (1998). Cortisol levels during human aging predict hippocampal atrophy and memory deficits. Nature Neuroscience.

Netemeyer, R. G. et al. (2018). How Am I Doing? Perceived Financial Well-Being, Its Potential Antecedents, and Its Relation to Overall Well-Being. Journal of Consumer Research.

Olshansky, S. J. et al. (2024). Implausibility of radical life extension in humans in the twenty-first century. Nature Aging.

Ouanes, S. et al. (2019). High Cortisol and the Risk of Dementia and Alzheimer’s Disease: A Review of the Literature. Frontiers in Aging Neuroscience.

Reddy, O. C. et al. (2020). The Sleeping Brain: Harnessing the Power of the Glymphatic System through Lifestyle Choices. Brain Sciences.

Robine, J.-M. et al. (2017). Worldwide demography of centenarians. Mechanisms of Ageing and Development.

Sommerlad, A. et al. (2023). Social participation and risk of developing dementia. Nature Aging.

Steptoe, A. et al. (2020). Associations between financial strain and emotional wellbeing and physiological responses to acute mental stress. Psychosomatic Medicine.

Vaupel, J. W. et al. (2019). Demographic perspectives on the rise of longevity. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

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