O celular vibra e chega um áudio no WhatsApp. É o seu filho, aflito: ele bateu o carro, perdeu a carteira e precisa de um Pix urgente. A voz é dele, o jeito de falar também, mas o número é desconhecido. Quem está do outro lado não é o seu filho — é um golpista usando deepfake.
Deepfake é um vídeo, áudio ou imagem criado por inteligência artificial para imitar uma pessoa real de forma convincente. A tecnologia pode ser usada de forma legítima em produções audiovisuais ou na música, mas também pode ser utilizada por criminosos para aplicar fraudes e enganar pessoas.
Neste artigo, você vai conhecer os principais golpes que usam deepfake no Brasil, como identificar um conteúdo falso e o que fazer se você ou alguém da sua família cair em um deles.
O que é deepfake?
Deepfake é um conteúdo de vídeo, áudio ou imagem criado ou alterado por inteligência artificial para fazer parecer que uma pessoa real disse ou fez algo que nunca aconteceu. A tecnologia consegue trocar rostos em vídeos, imitar vozes e gerar fotos de pessoas que nem existem, com um realismo difícil de perceber a olho nu.
O nome junta duas palavras em inglês: deep learning (aprendizado profundo, um ramo da inteligência artificial) e fake (falso). O termo surgiu em 2017, quando um usuário de um fórum on-line com o apelido “deepfakes” começou a publicar vídeos manipulados com o rosto de celebridades.
Vale diferenciar deepfake de montagem comum. Uma montagem é feita à mão, em programas de edição. Já o deepfake é gerado por um sistema que aprendeu a imitar aquela pessoa. Também não é sinônimo de fake news: o deepfake é o formato (o vídeo ou áudio falso), enquanto a fake news é a desinformação, que pode ou não usar deepfake para se espalhar.
Apesar da fama ligada a golpes, o deepfake também tem usos éticos e legítimos. O cinema usa a técnica para efeitos especiais e para rejuvenescer atores; a publicidade e a dublagem, para sincronizar falas em outros idiomas; e a saúde, para recriar a voz de quem a perdeu por uma doença. O problema principal da tecnologia deepfake é o uso da imagem e da voz de alguém sem consentimento e com a intenção de enganar.
Como funciona a tecnologia deepfake?
O deepfake funciona com aprendizado de máquina: um sistema de inteligência artificial analisa muitas fotos, vídeos ou áudios de uma pessoa até aprender os traços do rosto, as expressões, o timbre e o ritmo da voz. Depois, usa esse aprendizado para gerar conteúdos novos com aquela aparência ou aquela voz.
Uma das técnicas mais usadas se chama GAN (Generative Adversarial Networks; sigla em inglês para redes adversárias generativas). Funciona como uma disputa entre duas IAs: uma é a “falsificadora”, que cria imagens, e a outra é a “fiscal”, que tenta descobrir se elas são falsas. A cada rodada, a falsificadora aprende com os erros, até que a fiscal já não consiga diferenciar o falso do real.
Tipos de deepfake
| Tipo | O que faz | Aparece em quais golpes |
| Vídeo com troca de rosto | Coloca o rosto de uma pessoa sobre o corpo de outra, ou faz alguém “falar” o que nunca disse | Anúncios falsos com famosos, chantagem |
| Clonagem de voz | Imita o timbre e o jeito de falar de alguém a partir de poucos segundos de áudio | Golpe do falso parente, falso sequestro, falsa central do banco |
| Imagem sintética | Cria fotos realistas de pessoas que não existem ou altera fotos reais | Perfis falsos em redes sociais e apps de relacionamento |
| Deepfake em tempo real | Aplica o rosto ou a voz falsa durante uma videochamada ao vivo | Falso chefe, falso gerente, tentativas de burlar a biometria facial |
Quais são os riscos do deepfake?
O maior risco do deepfake é que ele torna a mentira muito mais convincente. E o problema já é grande no Brasil: as fraudes com deepfake e identidades sintéticas cresceram 126% no país em 2025, segundo o Identity Fraud Report 2025–2026, da Sumsub.
Parte desse crescimento se explica pela facilidade. Criar um deepfake já exigiu computadores potentes e conhecimento técnico; hoje, aplicativos e sites fazem isso em poucos minutos. Em muitos casos, poucos segundos de áudio já podem ser suficientes para criar imitações bastante convincentes da voz de uma pessoa, e fotos públicas servem de matéria-prima para montar um rosto falso.
1. Fraudes financeiras e roubo de identidade
O uso mais comum do deepfake no crime é conseguir dinheiro. Com a voz ou o rosto de alguém de confiança, o golpista convence a vítima a fazer um Pix, a passar senhas ou a confirmar dados. Em casos mais sofisticados, a imagem falsa é usada para tentar abrir contas, pedir empréstimos ou burlar a biometria facial em nome de outra pessoa.
2. Desinformação
Vídeos e áudios falsos de autoridades, jornalistas e candidatos podem espalhar boatos e confundir eleitores. Nas eleições de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) manteve a proibição de deepfakes para prejudicar ou favorecer candidaturas e passou a exigir que conteúdos de propaganda feitos com IA sejam identificados como tal.
3. Danos à reputação e chantagem
Montagens realistas também são usadas para difamar pessoas ou extorquir dinheiro, com a ameaça de divulgar um conteúdo falso. Mulheres são as principais vítimas desse tipo de violência, especialmente com montagens de cunho íntimo — o que levou o Brasil a endurecer as penas nesses casos.
Principais golpes com deepfake no Brasil
Os golpes com deepfake são, na maioria, versões turbinadas de golpes antigos: o criminoso continua se passando por alguém de confiança, mas agora com a voz ou o rosto dessa pessoa.
1. Golpe do falso parente com voz clonada
É a versão com IA do conhecido golpe do WhatsApp. O criminoso usa trechos de áudio publicados nas redes sociais para clonar a voz de um filho, neto ou outro parente. Depois, manda um áudio ou faz uma ligação pedindo dinheiro com urgência: um acidente, um celular roubado, uma conta para pagar. Uma variação mais cruel é o falso sequestro, em que a vítima ouve a voz “do parente” pedindo ajuda.
O sinal de alerta é a combinação de urgência, número desconhecido e pedido de Pix. Idosos são alvo frequente, por isso vale conversar com pais e avós sobre esse golpe.
2. Videochamada com o falso chefe ou gerente do banco
Com o deepfake em tempo real, o golpista aparece em uma videochamada com o rosto e a voz de outra pessoa. A versão mais comum é a falsa central de segurança do banco, que convence a vítima de que a conta foi invadida e pede uma transferência “para proteger o dinheiro”.
Esse tipo de manipulação, chamado de engenharia social, respondeu por 40% dos indícios de fraude registrados no país no primeiro semestre de 2026, segundo a Quod.
3. Celebridades e especialistas falsos em anúncios
Vídeos com rosto e voz de artistas, apresentadores e médicos circulam nas redes sociais vendendo remédios milagrosos, cursos e “investimentos” com retorno garantido. Desconfie de qualquer promessa de cura ou de dinheiro fácil, mesmo vinda de um rosto conhecido.
4. Golpe do amor com perfis criados por IA
Golpistas criam perfis com fotos sintéticas e até vídeos curtos para sustentar um relacionamento virtual. Depois de semanas de conversa, surgem os pedidos de dinheiro: uma emergência médica, uma passagem, uma taxa para liberar um prêmio. Um sinal típico é a pessoa sempre arranjar desculpas para não fazer uma videochamada ao vivo.
5. Fraude de identidade e biometria facial
Com fotos e vídeos disponíveis na internet, criminosos tentam criar versões sintéticas do rosto de uma pessoa para abrir contas digitais, contratar empréstimos ou fazer compras em nome dela. Bancos e empresas têm reforçado a verificação, mas vale acompanhar extratos e consultas ao seu CPF para perceber qualquer movimentação estranha.
Como identificar um deepfake?
Não existe um teste infalível para identificar um deepfake. A tecnologia evolui rápido e corrige, a cada versão, as falhas que antes entregavam o conteúdo falso. Por isso, os sinais de contexto — o que a mensagem pede e como ela chega — costumam ser mais confiáveis do que os detalhes da imagem.
Sinais em vídeos
- Boca fora de sincronia com o que está sendo dito
- Piscadas estranhas, sejam raras demais ou frequentes demais
- Contorno borrado entre o rosto, o cabelo e o pescoço
- Iluminação e sombras que não combinam com o ambiente
- Dentes, orelhas e mãos pouco definidos ou deformados
- Em uma videochamada, peça para a pessoa virar o rosto de lado ou passar a mão na frente dele; muitos deepfakes em tempo real falham nesses movimentos
Sinais em áudios e ligações
- Voz sem respiração, pausas ou emoção natural
- Ruído de fundo artificial ou que some de repente
- Frases curtas e repetitivas, como se fossem lidas
- Fuga de perguntas pessoais que só a pessoa verdadeira saberia responder
Sinais no contexto (os mais confiáveis)
- Urgência: “tem que ser agora”, “não dá para esperar”.
- Pedido de dinheiro ou de dados: Pix, senha, código de verificação, foto de documento.
- Canal novo: um número que você não conhece, um perfil recém-criado.
- Pedido de segredo: “não conta para ninguém”, “não liga para o banco”.
- Oferta boa demais: cura milagrosa, rendimento garantido, prêmio inesperado.
Esses sinais são típicos da engenharia social, a manipulação emocional que está por trás da maioria dos golpes. Se a mensagem junta dois ou mais deles, trate-a como golpe até provar o contrário.
Como se proteger de golpes com deepfake?
A melhor proteção contra deepfake não é tecnologia, é hábito: confirmar antes de agir. Estas sete atitudes reduzem muito o risco de cair em um golpe:
- Combine uma palavra de segurança com a família. Escolha uma palavra ou pergunta que só vocês conheçam e use-a sempre que alguém pedir dinheiro em uma ligação ou áudio.
- Desligue e ligue de volta. Recebeu um pedido estranho? Encerre a conversa e ligue para o número que você já tem salvo da pessoa, do banco ou da empresa.
- Nunca faça Pix sob pressão. Use os limites de transferência no período noturno e o cadastro de contatos de confiança no aplicativo do banco.
- Reduza a exposição da sua voz e da sua imagem. Revise a privacidade das redes sociais e pense duas vezes antes de publicar vídeos longos falando para a câmera em perfis abertos.
- Ative a verificação em duas etapas no WhatsApp, no e-mail e nos aplicativos do banco.
- Converse com pais e avós. Explique como funciona o golpe do falso parente e combine com eles a palavra de segurança.
- Desconfie de anúncios com famosos. Promessa de cura ou de rendimento garantido é sinal de golpe, mesmo com um rosto conhecido.
Caí em um golpe de deepfake: o que fazer?
Se você caiu em um golpe, aja rápido: quanto antes o banco for avisado, maior a chance de bloquear o dinheiro. Siga estes passos, nesta ordem:
- Avise o banco imediatamente e peça a abertura do MED (Mecanismo Especial de Devolução) do Pix. Desde 1º de setembro de 2026, a vítima tem até 80 dias após a transferência para fazer o pedido, mas a devolução depende de haver saldo nas contas envolvidas — por isso, não espere.
- Registre um boletim de ocorrência. Na maioria dos estados, dá para fazer pela delegacia on-line.
- Guarde todas as provas: prints das conversas, áudios, vídeos, números de telefone, perfis e comprovantes de transferência. Se precisar dar validade jurídica a esse material, uma ata notarial feita em cartório pode ajudar.
- Denuncie o perfil ou o conteúdo na própria plataforma (WhatsApp, Instagram, YouTube etc.).
- Avise seus contatos se a sua voz ou a sua imagem foi usada, para que ninguém mais caia no golpe.
- Se o golpe envolveu cartão, peça o bloqueio e a contestação das compras.
- Em caso de conteúdo íntimo falso, denuncie na Central de Denúncias da SaferNet e peça a remoção à plataforma.
O que diz a lei sobre deepfake no Brasil?
Criar um deepfake, por si só, não é crime no Brasil. O crime está no uso: golpes, difamação, violência contra a mulher e conteúdo envolvendo crianças já são punidos, e algumas leis recentes aumentam a pena quando há uso de inteligência artificial.
- Golpes com deepfake podem ser enquadrados como fraude eletrônica, prevista no Código Penal desde a Lei 14.155/2021, com pena de 4 a 8 anos de reclusão e multa.
- Violência psicológica contra a mulher: a Lei 15.123/2025 aumenta a pena em metade quando o crime é cometido com IA ou outro recurso que altere a imagem ou a voz da vítima.
- Crimes contra crianças e adolescentes: a Lei 15.487/2026 inclui conteúdos gerados por IA entre os materiais ilegais e aumenta as penas de um terço a dois terços quando há uso de deepfake.
Outros projetos seguem em discussão no Congresso. O PL 3821/2024, que cria o crime de produzir ou divulgar nudez falsa feita com IA, foi aprovado pela Câmara e seguiu para o Senado. Já o PL 2338/2023, o marco regulatório da inteligência artificial, foi aprovado pelo Senado e aguarda análise na Câmara.
Em caso de dúvida sobre o seu caso, procure um advogado ou a Defensoria Pública.
Prevenção e planejamento: como proteger sua família
Os golpistas trocam de tecnologia, mas a lógica se repete: criar urgência, se passar por alguém de confiança e pedir dinheiro ou dados. Quanto mais você conhece essas táticas, mais fácil fica reconhecê-las — com ou sem inteligência artificial. Por isso, vale compartilhar este artigo com quem você ama, principalmente com os familiares mais velhos.
Como boa parte desses golpes termina em uma transferência instantânea, vale entender também as fraudes com Pix e os cuidados que ajudam a evitá-las. Para ter uma visão mais ampla, confira os golpes financeiros mais comuns e os golpes de internet que mais fazem vítimas no Brasil.
Perguntas frequentes
Qual é a tradução de deepfake?
Deepfake pode ser traduzido como “falsificação profunda”. O termo junta deep learning (aprendizado profundo, uma técnica de inteligência artificial) e fake (falso).
Existe ferramenta para detectar deepfake?
Existem detectores on-line, mas nenhum é 100% confiável. A forma mais segura de checar continua sendo confirmar a informação diretamente com a pessoa ou a empresa, por um canal que você já conhece.
Deepfake é crime?
Criar um deepfake não é crime por si só, mas usá-lo para aplicar golpes, difamar alguém ou produzir conteúdo íntimo sem consentimento é. Nesses casos, a pena pode ser maior justamente pelo uso de inteligência artificial.







